Cãominhada

Cãominhada é um projeto de voluntariado para passeios com cães que estão a espera de adoção.

Depoimento

Antonio & Balancê

Antonio & Balancê

Em março de 2013, durante o passeio da Enfermaria (após a Cãominhada) passei em frente ao Setor de Isolamento (que para quem não sabe, é na esquina vizinha à Enfermaria). Na plataforma havia um agente sentado acompanhado por uma cadela. Já de cara estranhei o fato dela estar livre e sem guia, mas logo percebi o motivo: a cadela não conseguia nem parar de pé, quanto mais fugir. Primeiro, porque cruzava involuntariamente as patas, e segundo, porque tinha espasmos muito fortes e repetidos, como se estivesse com um violento soluço. Malhada tricolor, porte médio-pequeno, pelo curto. Uma SRD pura (hahaha) mas como referência racial, parecia uma Fox Terrier de pelo liso.

A cachorra não saiu da minha cabeça. O passeio da enfermaria acabou, e eu queria saber detalhes do caso. Não havia mais ninguém diante da sala, mas logo vi uma agente saíndo de lá. Abordei-a.

– Moça, posso ver uma cachorra aí?

– Pode.

– Aquela ali na gaiola, o que acontece?

– Sequela de cinomose. Nessa daí pegou forte.

– Qual o nome dela?

– Não tem nome. Mas a gente chama ela de Balancê, porque ela fica dando essas balançadas.

– Posso ficar com ela um pouco?

Tive permissão, e trouxe-a no colo até o corredor externo. Coloquei-a no chão. Duas ou três contrações depois, caiu de lado. Tentei ajudá-la a ficar de pé, mas ela logo caiu de novo, com a cara no chão. E continuou tendo as contrações, como marcando o tempo, a cada segundo.

– Moça, e agora? Tem tratamento? Vai melhorar?

– Quando encerrar a fase de desenvolvimento (da doença) aí vai dar pra saber que sequelas ficaram. Mas no caso dela está quase terminando.

– E aí?

– E aí os vets vão ver se fazem eutanásia ou não. Eles não eutanasiaram ainda porque ela parece disposta, e está se alimentando normalmente.

Aí é que está. A “Balancê” trazia nos olhos uma tremenda vontade de viver. Não consegui esquecer esse nome, e no domingo seguinte, ao fim da Cãominhada, perguntei a uma voluntária sobre ela.

– Balancê? Não sei qual é, mas teve uma eutanasiada sexta-feira. Pelo que você está me falando, acho que foi ela.

Com o coração partido, quis ir ao isolamento, só para ter certeza. Olhei pela porta e tive duas supresas: primeiro, a Balancê estava lá, vivinha da silva!! Segundo, ela me viu e reagiu feliz (aparentemente me reconhecendo). Então eu quis tirá-la da gaiola mais uma vez. Coloquei-a no chão, ela balançou, balançou, ensaiou dois passinhos e caiu. Opa! Já era alguma coisa. Ajudei-a a ficar de pé várias e várias vezes, muitas balançadas, alguns passinhos, aí ela se cansou de vez e permaneceu deitada.

Também haviam outros cachorros no isolamento, incluindo vários filhotes. E tinha o Tapetinho, um tipo de mini-Golden que só ficava deitado (aparentemente a cinomose deixara-lhe com um tipo de tetraplegia e ele não se levantaria mais). Mas ainda assim, ele se alimentava e respondia feliz aos carinhos (e tinha o pelo lisinho como o de um gato!).

Mais uma Cãominhada, e comentei com a Keké e com a Paty se outros passeadores não poderiam me acompanhar ao Isolamento. Apesar dos agentes retirarem os “cinomóticos” das gaiolas na maior parte dos dias, valia a pena dar a eles um pouco mais de atenção. E lá foram comigo meus nobres amigos Roby, Zé Carlos e outros cujo nome me foge agora. Mais um espanto: pus a Balancê no chão e ela de imediato correu uns fantásticos 5 metros!! E caiu, mas agora após uma pequena vitória.

O isolamento aos domingos passou a ter uma espécie de festa. Eram uns sete ou oito cachorros naquele corredor dos fundos, fazendo a maior arlgazarra. Quando a Balancê tentava se levantar, vinha um filhote atentado e a derrubava. E a luta continuava.

Aproveitando a melhora da Balancê, resolvi dar-lhe um estímulo a mais. Passei a colocá-la sobre a plataforma e sustentar parcialmente seu peso, para ver se conseguia manter-se andando. Assim, eu ia e voltava umas duas vezes pela plataforma inteira. Às vezes ela parecia melhor, às vezes parecia estável. E assim se seguiram outros domingos: após o passeio da Enfermaria, festinha do isolamento! A alegria daquela cachorrada solta no corredor era comovente. E nós voluntários ficávamos mais contentes ainda (como me disse o Zé Carlos, com a gente “fingindo que vem pelos cachorros”, hahaha).

Num dado domingo, uma notícia triste: o Tapetinho tinha sido eutanasiado. Pobre anjo, tinha parado de se alimentar, e o procedimento não podia ser outro. Mas a Balancê tinha sido… castrada! Para bom entendedor, isso era um atestado de futuro!

Semanas depois, a Balancê foi “promovida” a um canil comum. E eu tive a grande sorte de conduzí-la numa Cãominhada. Cuidados especiais? Nada disso, a Balancê marchou vigorosamente por aproximados 1500 metros. Aí pudera, caiu exausta. E eu tive o rosto todo lambido por esta amiga inesquecível.

Se eu tivesse o mínimo lugar para ela, já estaria comigo faz tempo. Nesses 4 anos de CCZ, foi meu laço mais profundo. As sequelas dela jamais desaparecerão por completo, mas quem sabe conseguimos alguém que tenha a felicidade de levar essa guerreira para casa?

Abraço e sorte a todos!!!

Antonio Matienzo

Acesse aqui e saiba mais sobre a Cinomose!

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Sobre caominhadaccz

Eu sou uma voluntária que dedica as suas horas vagas aos animais. Quer seja com trabalhos braçais, como passeios e cuidados e também escrevendo para este blog. No blog divulgo o projeto com os animais e provoco temas de formação de conscientização e de cuidados com os animais.

23 comentários em “Depoimento

  1. Roberto Blatt
    10/11/2013

    Com certeza nossos cãopanheiros têm muito mais histórias para contar. Seria realmente legal vê-las aqui.

  2. Sandra Regina J
    09/11/2013

    Muito legal essas interação entre voluntários, passeadores e adotantes, cada um com sua história e sempre complementando histórias contadas. Parabéns a todos….

  3. Mimi Saito
    07/11/2013

    Hoje quem tem o prazer de ter a companhia dela sou eu e meus filhos. Ela é bem alegre, mas muito ciumenta, não posso brincar com outros bixanos que ela empurra todos e pula em cima de mim. Além dela tenho mais 2 bixanos que tem sequela de cinomose e são os nossos xodós, a cada dia me surpreendo com a vontade que ela tem de brincar e interagir com os outros. Recebi muitas criticas quando adotei ela em SP e trouxe para LAGES, mas valeu a pena, pois ela traz alegria não só para a minha família, mas também para outros bixanos que resgato. Ela apesar de ser fêmea, coloca ordem nos outros bixanos, é muito engraçado, ela manda e demanda nos bixanos….

    • caominhadaccz
      08/11/2013

      Você é uma abençoada em adotar essa linda especial e tem lugar reservado no céu!!! Um beijo e obrigada pelo depoimento e compartilhando, pois adoramos saber notícias de nossos queridos adotados!!! Viviani Medeiros-Voluntária

    • Roberto Blatt
      10/11/2013

      É difícil dizer qualquer coisa. Quanto mais feliz eu a via, mais comovido eu ficava. Porque a doença não conseguiu vencê-la. Ela deu sorte com vocês e vocês com ela.

  4. Sandra
    31/07/2013

    Lendo essa história hoje, depois que ela foi adotada, mais comovente se tornou, pois foi dado a ela a chance de encontrar uma família que a ame, e espero sinceramente que ame mesmo, que dê a ela (essa vencedora) muito amor, carinho e conforto, ela merece, e espero que eles também a mereçam.

  5. Ana Célia
    17/06/2013

    Fantástico seu depoimento, eu também tive o prazer de caminhar com ela, num domingo recente, e posso dizer que ela é tudo e muito mais que você relatou. Fico na torcida por uma adoção feliz para ela e todos os outros. Parabéns pelo texto, comovente!!!

  6. Anne Yuri Watanabe
    13/06/2013

    Lindo depoimento Toninho! Eu presenciei algumas de suas sessões de fisioterapia, a sua dedicação com a Balance. Semana passada tive o prazer de levar a Balance para caominhar, foi ótimo! Parabéns!!

    • Antonio Matienzo
      16/06/2013

      Ah, essa Balancê é uma danada. É só darmos uma atençãozinha e ela se mostra toda feliz. Assim consegue tudo da gente! Obrigadão!!

  7. Santina da Silva
    13/06/2013

    Linda e emocinante história! Que todos “os balancês ” encontrem seus “Toninhos “

    • Antonio Matienzo
      16/06/2013

      Ah, eu ficaria bem vaidoso se fosse por mim, hahaha… mas sem o carinho de voluntários e agentes, a Balancê estaria enrascada… Abraços!

    • Roberto Blatt
      10/11/2013

      Muito bem falado!

  8. Simone Miranda
    13/06/2013

    Sou funcionária do CCz, estive afastada por lincença maternidade, agora estou de volta. Quando vi no face a foto da balancê (que não é da época quando ainda estava trabalhando) não resisti e abri, para ver o comentário. A conheci no canil P verde a pouco tempo, não sabia que ela tinha passado pelo isolamento, achei que ela tinha chegado lá com as sequelas desta maldita doença. Durante minha gestação fiquei a maior parte do tempo no isolamento, tive algumas alegrias em poder ver cães de alta e serem adotados, como também terminarem seus dias por ali mesmo. Achei muito legal esta iniciativa, pois acredito muito que além de remédios e cuidados básicos nossos bichinhos precisam de muito amor, carinho e atenção para o tratamento de suas enfermidades! Parabéns!!!!

    • Antonio Matienzo
      16/06/2013

      Valeu, Simone! Lá no início da Cãominhada, em 2009, eu me espantei com alguns funcionários simplesmente não gostavam de animais, e estavam no CCZ por acaso. Não sei exatamente o motivo, mas algo mudou. Hoje é muito bom perceber o contrário: a Zoonoses tem muitos funcionários que fazem muito além da sua obrigação. Sem amor, nada funcionaria ali. Abraços!

  9. silvia sarzano
    13/06/2013

    Estou emocionada com tanto amor ! Parabéns Antonio, com certeza Balancê foi alimentada com sua dedicação. Lindo !!!!! bjs
    Silvia Sarzano

    • Antonio Matienzo
      16/06/2013

      Ah obrigado, Silvia! Por mais que haja sempre resmungos aqui e ali (é próprio da gente reclamar, rsrs) basta abrir os olhos: naquele CCZ vemos um monte de amor, humano e canino! Por isso voltamos… Abração!

  10. Roberto Blatt
    13/06/2013

    Não canso de ler a história… Acho que ninguém escreveria melhor, Toninho

    • caominhadaccz
      13/06/2013

      Eu concordo, Roberto! História fantástica e muito bem escrita!! Valeu Toninho!!

      • Antonio Matienzo
        16/06/2013

        Eu é que agradeço o espaço, Vivi!

    • Antonio Matienzo
      16/06/2013

      Obrigado, Robynho! Se não infringisse as regras da Cãominhada, eu aproveitaria para abraçá-la toda vez!

  11. Roberto Blatt
    13/06/2013

    Muito dez! Eu também ia brigarpela Balancê, se pudesse levá-la 🙂

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Publicado às 13/06/2013 por em Depoimentos e marcado , .
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